Rotina
Acordava sempre à mesma hora da manhã. Seguia impulsivamente a mesma rotina sempre, com seus bocejos, espreguiços e estalos pelo corpo. Dava um beijo na testa de sua mulher e dirigia-se ao banheiro, onde acordaria de maneira mais satisfatória com um pouco de água gelada no rosto, faria suas necessidades e escovaria os dentes.
Não gostava muito do ritual devido à essa última parte: a menta dos tubos industrializados acabava com o gosto de seu pão, mas gostava de agradar à mulher, e seguia em direção à mesa sem grandes incômodos. Gostava de frutas, pães e biscoitos, sempre foi de caprichar no desjejum desde quando seu avô disse ser o reforço em tal refeição o segredo da longevidade. Não questionava os mais velhos da família e nem precisava: Jair, aos 77 anos, esbanjava saúde. Nunca foi do tipo atleta, mas seus últimos exames médicos confirmaram o mesmo que todos os anteriores: perfeito estado. Sentia-se, não se sabia o motivo, extremamente incomodado ao sentar-se primeiro à mesa, o que o levava sempre a observar os gestos de sua companheira e a quase que acompanhá-los com um pouco de atraso. Não havia a fartura de outrora, mas o tempo gasto permanecia. As ações eram lentas, como se fossem cuidadosamente arquitetadas. Com o pedido de licença, recolhia seu prato, lavava-o de maneira não muito caprichosa e dirigia-se novamente ao banheiro. Realizava novamente sua higiene bucal e se preparava para arrumar-se: o começo de um novo dia. Vivia assim.
Jair e Lúcia, agora com 75 anos, se conheceram numa rua não muito movimentada da periferia da cidade quando crianças. Não levaram uma juventude com muitas emoções. Provavelmente nunca precisaram de se desgastar sonhando com possibilidades, visto que as coisas sucederam-se com certa rapidez, ao passo que, quando perceberam, estavam com uma pequena casa, casados.
Jair era funcionário público. Aplicava com orgulho seu dinheiro. Homem modesto, procurava uma vida digna, mas sem problemas. Estes, aliás, parece que esqueceram-se dele. A vida seguiu com linearidade para esses dois. Sem emoções, sem percalços: estudos, trabalho, casamento, filhos, aposentadoria... Sabiam que o próximo passo era a supressão da forma chamada vida, mas o que importava? Os fatos se sucederam da maneira como deveriam, da maneira que seus pais lhe ensinaram a ser o correto e não havia dúvidas ou queixas no que concerne ao assunto.
Pouco sociáveis, com pouca percepção do que realmente acontecia, gastaram todos os dias das suas vidas fazendo as mesmas coisas, sem grandes questionamentos. Não se importavam. Muito se comentou certamente sobre tal casal. "Loucos". "Sofridos". "Solitários". Os risos debochados desenhados nos rostos dos colegas nas reuniões do clube ou do escritório quando era citado o nome de um dos dois se tornou algo corriqueiro. "Não se pode ser feliz assim". "Sonham, com toda a certeza, ser como nós e estar aqui". Jair e Lúcia estavam, sim, a par da situação. Relevavam. Não conseguiam se comprometer.
O pânico poderia tomar conta de muitos ao saberem que, perto do fim, pode-se abandonar um companheiro ou por ele ser abandonado do dia pra noite, deixando com que a solidão impere, forte e impetuosa. Mas, como faziam com quase tudo, não se importavam. Bastavam-se um ao outro. E, na monotonia do cotidiano, estavam alheios propositalmente às dores e aos amores dos que os rodeavam. Por vezes ignorados, mantinham-se ignorantes. Velhos ignorantes. Os dois velhos mais felizes de que jamais tivemos notícias.
