Erudição
Eu imagino como seria se fosse mais informado. Existe um mundo novo ao meu redor, esperando pra que eu o conheça. Música, cinema, teatro, poesia, contos, crônicas, romances, livros, jornais, revistas, encontros culturais diversos. Imagino se eu fosse um desses intelectuais. Melhor dizendo, se eu fosse erudito, palavra que sempre gostei de pronunciar. Imagino se eu pudesse opinar sobre tudo, saber sobre economia, política, sociedade, cultura, história e por aí vai. Claro, o mais importante seria saber o que poucos sabem, até porque é aí que está o grande valor do conhecimento: falar sobre o que ninguém entende enobrece o espírito, renova as energias, aumenta a auto-estima e, consequentemente, mostra a todos quem é o (culto) indivíduo em questão. Imagino se soubesse falar bem várias línguas: inglês, francês, espanhol, italiano, alemão. Ah, sem dúvidas que colocaria frases aleatórias no meio de uma conversa em português, riria da situação, mesmo que ninguém entendesse o motivo da risada. Aliás, rir é algo do qual não abriria mão. Seria muito engraçado poder opinar sobre tudo com autoridade e ver a cara de espanto ou mesmo admiração das pessoas ao redor. Sem dúvidas, aliás, o mais interessante é o cone formado pela capacidade de entendimento de um intelectual. A cada dia que se passa, menos informação precisa-se reter para refletir e opinar sobre determinado assunto. Um filme turco define todo o cinema de tal cultura. Não na cabeça dos comuns, mas de um intelectual, certamente. O problema todo é que sempre que imagino tal situação, o pensamento vem acompanhado por uma sensação indescritível de nojo. Claro que não se pode pensar que algum tipo de inveja estaria camuflado no meu nojo, até porque enquanto um desses rapazinhos estudam, refletem e debatem sobre sexo, amor, relacionamentos, dinheiro etc, muitos vivem tais situações. É evidentemente mais interessante viver a sensação a estudar a mesma. Na verdade, me sinto enojado pelo simples fato de ser intragável a convivência com um tipo desses. Quem me dera conviver com um intelectual de verdade, conhecedor (não a fundo, até por ser isso rigorosamente impossível) das ciências, filosofia, literatura, música e pintura, que, além de verdadeiro conhecedor e que com inteligência e delicadeza soubesse debater sobre assuntos diversos, também conhecesse seus limites e tivesse a humildade de deixá-los claros sempre que necessário. Só os ignorantes estão aptos a aprender algo. Conviver diariamente com parasitas estúpidos que abastecem o próprio intelecto com links de blogs e vídeos, que não admitem em hipótese alguma estarem errados ou saberem menos que qualquer pessoa no mundo é o maior dos exercícios de resistência psicológica e não há treinamento militar que supere um castigo desses. A internet é um manual, na maioria esmagadora das vezes, que contém os pontos necessários que devem ser completados para que um indivíduo naturalmente burro e tapado se torne um idiota completo. O primeiro ponto é auto denominar-se nerd, o passo final é escrever, em outra língua, sobre um assunto fora do assunto, num local onde se debate em português. Parece que é bonito ser idiota, como se o fracasso latente pudesse ser disfarçado com uma mediocridade fantasiada de erudição.