Como varia de pessoa pra pessoa a ideia do tempo, ou melhor, a velocidade com que passa, tem-se que alguns dias podem parecer segundos ou séculos e essa diferença não se deve apenas às visões de diferentes indivíduos, mas sim das diferentes visões de um mesmo indivíduo.
Um homem fiel aos seus ideais, com uma insana busca por moralidade, que se faz de forte a qualquer custo e se engana como jamais deveria ser feito a um ser inocente que, no fundo, o é. Faria discursos, gesticularia, usaria de variadas palavras em diferentes tons para deixar claro sua falta de sensibilidade para com a distância. Sua falsa indiferença acobertaria o medo da perda, e arrastaria os anos como se pudesse domar o tempo. Ela lá, ele aqui. Isso não faria diferença. Saberia que, na verdade, não possui poder algum frente às circunstâncias, mas não há poder maior do que o da auto-ilusão e, diante da perda (que nossa pobre alma seja livre disso), hipocritamente rasgaria publicamente sua alma, cuspiria em sua moral e se humilharia como jamais pensasse que pudesse ser capaz, tudo por não ter a coragem de pensar com honestidade e viver a vida com a verdade.
Já um pobre indivíduo qualquer, deboche de seus semelhantes, motivo de vergonha por sua indiscreta sinceridade, diria claramente que não há distância pequena, que o tempo de um minuto pode encerrar toda uma geração, basta que um ser que ama sinta verdadeiras saudades. Que debochem dele. Não me importo, mas o leitor há de convir que não se vive uma vida estritamente racional a não ser que sejamos robôs, mas, se assim quisesse a circunstâncias que tivéssemos vindo ao mundo, não questionaríamos com tanta facilidade, o que me leva a crer que esse debate não faz muito sentido no momento.
A verdade é que não sou muito adepto da ideia de viver como se não houvesse amanhã. Me passa uma sensação de indiferença, como se tudo passasse a ser permitido, e não é bem assim que as coisas deveriam funcionar. Sou admirador mesmo é da liberdade. Essa grande e indiscutível fase, sensação, ou não sei o que, que faz com que possamos evoluir, pensar, sermos os seres mais infelizes e, concomitantemente, bem-aventuradas bolas de conexões físico-químicas ambulantes de que se pode ter notícia.
A liberdade nos livra, ao menos na teoria, de todos os percalços que possam vir aparecer na vida de quem ama ou pretende amar. A supressão dela destrói tudo por completo. Admito não saber medir a maior desgraça, se a morte ou a privação da liberdade. E quando falo de liberdade, falo daquilo que todos imaginam, que não me venham com filosofias baratas de que não somos livres jamais. Sei muito bem o que é ser livre e você também sabe.
O que me dói o peito, e me apressarei agora em resolver a questão, é imaginar o que seriam 10 dias na vida de um condenado prestes a ser liberto. Mais: que soubesse que, ao término de tal período estaria logo ao lado da pessoa amada, reconstruiria sua honra, sua família e sua vida em geral. Essa é a grande ideia de viver como se não houvesse amanhã. Não fazendo tudo a qualquer custo, mas não deixando de dizer ou fazer o que poderia e, principalmente, deveria ser feito.
Temos uma falsa impressão, salvo raras e plausíveis exceções, de que o tempo nos espera e que o mês que vem é somente mais um trecho de vida no qual viveremos como bem entendermos. Mas o que seria um mês para alguém que espera décadas por algo? Alguns poucos minutos talvez? Menos? Não só não damos verdadeiro valor ao tempo presente, ao desperdiçá-lo com caprichos incalculavelmente imbecis, achando que tudo acontecerá como planejamos, como também não nos preparamos para absolutamente nada de importante que nos possa acontecer.
Dizem que devemos sempre, a qualquer aparentemente estúpido momento, deixar as pessoas que amamos com gestos de carinho. É a mais pura verdade. Podemos ter a humildade de admitir nossa impotência ante as circunstâncias, além de nosso carinho por aqueles que amamos, como também podemos com toda a prepotência que nos é peculiar, ignorar todos os sinais e viver como bem entendermos, achando que tudo estará sempre como desejamos. Mas, que ao menos tenhamos a capacidade de admitir nossos erros quando, no planejamento intrépido do futuro, percebermos que tudo se transformou em uma grande ilusão.
A vida se desmancha em segundos, indiferente. É preciso, realmente, saber viver.