Uma folha pintada das mais variadas cores pode ser muito bela, ter uma ótima primeira impressão, além de muita serventia, não duvido. É o que fazemos com belos quadros: admiramos, olhamos por várias vezes, refletimos sobre sua mensagem, guardamos o mais marcante das partes em nosso pensamento e guardamos um lugar especial para a ideia ali contida.
Mas, de que vale um quadro para um pintor ávido para executar seu trabalho? É a mesma história da xícara cheia ou da vida coberta de ordens. Achamos que uma vida agitada e uma xícara cheia são os exemplos de como as coisas deveriam ser, mas não nos damos conta de que deveria ser exatamente o contrário. Serventia existe somente na xícara vazia, é nela que poderemos botar o que bem entendermos e usar da maneira que acharmos mais conveniente. Da mesma forma, é na vida vazia, solitária, isenta dos mais variados e perturbadores ruídos, que podemos sugar o que há de mais íntimo e honesto de nosso próprio ser. É somente através da reflexão sem julgamentos e conceitos pré-definidos que conhecemos a nós mesmos. As alianças que fazemos na vida e chamamos dos mais variados nomes, como casamento, amizade, e por aí vai, nos ajudam somente a vermos quem realmente somos, mas a mudança só pode vir através da reflexão solitária.
A folha em branco chama-se ateísmo. As belas cores chamam-se religiões. Por mais que a tela fique aparentemente bela com brilhantes e vívidas pinturas, a base de tudo sempre será a folha em branco. A verdade pode ser acobertada, mas, ao tentar acabar com ela, acaba-se com tudo.