Poder

Acho uma completa loucura determinados tipos de preocupações. Infelizmente estamos inseridos num sistema que não é perfeito, mas dura e vai continuar a perdurar por ter se encaixado com perfeição à natureza humana, ou seja, um sistema egoísta e alienante. Não que o egoísmo seja mal, até porque todos nós temos um certo egoísmo, aquele egoísmo natural, tão vital quanto o processo respiratório. Aquele egoísmo que te move ao ajudar um mendigo, pensando, queira ou não, na maior segurança e limpeza da rua.

Esse tipo de egoísmo salvaria a humanidade do limbo que se encontra. Se todos os imbecis da classe média parassem com essa filosofia de rodoviária "paz, liberdade, meritocracia bla bla bla" e fizessem alguma coisa por eles mesmo, teriam, necessariamente, que começar fazendo pelos outros. Queiramos ou não, o acesso dos pobres a água potável, esgoto tratado, eletricidade, escola, hospital e transporte público de qualidade é o que vai diminuir as chances de seu filho, sua irmã ou sua mulher serem assaltados à noite. Os pobres não são necessariamente violentos, mas a pobreza é uma fonte brilhante de violência, dos mais variados tipos.

As coisas não são como deveriam ser. São porque são. Porque a história quis assim, mas é claro que poderiam ser de outro modo. As pessoas pensam no dinheiro como uma entidade, quando não passa de nada. Um pedaço de papel com valor artificial. O que ergue prédios não é o dinheiro investido na construção, são os tijolos, o ferro e o cimento. O mundo poderia ser muito mais avançado tecnologicamente, culturalmente e socialmente, mesmo que nenhuma moeda fosse posta em circulação, mas essa será uma tarefa para outras gerações, que provavelmente possuirão sensíveis mudanças em seu DNA e terão mais de nossas virtudes e menos de nossos vícios.

A questão é que pobreza e riqueza, saúde e doença, tristeza e alegria sempre existiram e não deixaram de existir tão cedo. Deixar se levar pelo discurso politicamente correto de se preocupar com os outros pode ser um erro daqueles que não se pode voltar atrás. A maioria esmagadora dos pobres abandonaria tudo por luxo e conforto. O que eu queria é que todas as pessoas tivessem luxo e conforto. Opulência mesmo, um mundo inteligente de excessos. Mansões espalhadas por todos os lugares, trens-bala para levar os executivos, médicos, engenheiros, professores, magistrados etc de suas mansões na periferia limpa e arborizada até o centro de negócios e trabalho, seja lá como for tais negócios. Mas o mundo não é assim, e falsas preocupações, lágrimas desmedidamente falsas e infundadas, não mudarão nada.

A verdade é que podemos nos preocupar com os outros, podemos ajudar quem bem entendermos e nos sentir realmente satisfeitos com essas atitudes, mas o mundo pouco vai mudar. O avanço técnico-científico elevou a expectativa de vida nos países pobres, fez com que a população explodisse e a situação é praticamente irreversível a curto prazo. Hoje em dia africanos, asiáticos e sul americanos morrem diariamente por falta de água e comida. Há comida e água para todos, mas não há logística para isso. Uma parte do mundo mergulhou num caos que só termina na morte. A longo prazo, claro, a taxa de natalidade diminui, há um equilíbrio relativo com a expectativa de vida e as coisas passam a se acalmar. Daqui alguns séculos a população mundial volta a cair, e aí poderá se pensar em equilíbrio e partilha verdadeiros (de alguma forma, esse é o lado bom da história).

Visto que o mundo praticamente não vai mudar e será tão discrepante como sempre foi, e levando-se também em considerações que atitudes que transpassam a fria sensatez necessária á situação, caem no esquecimento, como viver a vida, nós que possuímos todas as oportunidades à busca da felicidade, prazer, conforto e satisfação? Teria lógica deixar de viver pela situação alheia? Creio que não. A base de toda ajuda deve ser ajudar a si mesmo. Eu posso ter a maior vontade do mundo por dar aulas de mecânica quântica, ajudar alunos interessados, trabalhar pelo progresso da ciência e do conhecimento, mas isso só será possível se, antes de ensinar a qualquer um, eu dedicar tempo bastante para aprender sobre. É a lógica da vida: para darmos, precisamos ter. Preocupar com a saúde alheia, destruindo o próprio corpo é uma insanidade. Se eu desejo ajudar um grupo de pessoas financeiramente, é mais racional que eu tenha dinheiro para poder ajudar. Passar a andar com drogados pseudo-filósofos não vai me ajudar em nada. Ajudaria muito mais pessoas se fosse profissional e financeiramente bem sucedido do que se me dedicasse a livros e devaneios descabidos sobre direitos, deveres e o futuro. Falar não é solução pra nada. O fazer existe pra isso, pra efetivar pensamentos bem elaborados.

A verdade é que andei pensando sobre poder. Bem, eu quero ter poder, quem não quer? Mas não o poder dos velhos caquéticos do capitalismo. Decrépitos perturbados pela falta de sexo, prazer e amizades, que se entregaram ao desejo de posse desmedido e não admitem pensar na cruel verdade universal: a morte iminente. Quero ter um poder bem colocado na minha vida. Conforto, luxo, uma mansão que abrigue bem minha família, um carro de luxo, boas roupas, bons perfumes, boa comida, lugares limpos com pessoas cheirosas e de bom gosto, beleza, arte de verdade (belos museus ao redor do mundo, ao contrário de bêbados barbudos lendo poesias em guardanapo de botequim), amigo despreocupados, espaço, tranquilidade, boa música, tranquilidade financeira, planejamento pra fazer o que a vida reserva de melhor.

Penso num pobre qualquer. Seja um funkeiro da favela, seja um pagodeiro de classe média emergente fazendo linguiça e asinha de frango na laje. Se eles tivessem no meu lugar, podendo escolher o que ser. Se eles pudessem deixar de pensar na pobreza para buscar a riqueza. Se eles pudessem escolher a Brasília do avô e a Mercedes da concessionária. Entre a linguiça na laje com os 28 amigos da pelada de domingo, e o salmão com molho de maracujá acompanhado de um sauvignon blanc saído da adega climatizada, com alguns amigos do trabalho e sua linda mulher ao lado. Entre a casa da mãe do amigo do primo do cunhado em Piúma, e um confortável apart hotel no melhor bairro de uma ótima cidade, nas férias de julho. Quantos milésimos de segundo gastariam para deixar suas posições atuais e mudar de vida? E por que diabos eu penso tanto no oposto? Tenho todas as oportunidades do mundo em mãos.

A felicidade reside no acúmulo dos pequenos prazeres. Se encontra na água gelada numa tarde de verão, na banheira de hidromassagem após um da cansativo, no sexo com a pessoa que se ama, num beijo bem dado, numa planta que floresce, no e-mail que chega, no sorriso sincero dos verdadeiros amigos e amores. Mas o luxo potencializa os prazeres de quem sabe viver bem, criando uma outra atmosfera de vivência, um outro sentido pra vida, novos rumos, nova vida. Essa oportunidade não vai me escapar.