Riqueza

Os ateus imbecis (como eu) adoram brincar com o fato da existência de deuses. Se eu dissesse que deixei de acreditar em deus porque não ganhei na mega-sena, pegariam essa minha fala como apenas mais uma piadinha, mas, nesse caso, não é.

É uma questão de lógica. Acredito que era o ano de 2003 quando joguei na loteria, com fé, pela última vez. Comecei a ficar realmente decepcionado. Veja bem: deus sabe de tudo o que acontece, seja em nossas ações, seja em nossos pensamentos. Se ele existisse, saberia que eu realmente queria ganhar na mega-sena pra ajudar outras pessoas. Mas nunca ganhei. Sequer acertei qualquer número.

Esse é um pensamento que, mesmo que mais elaborado, ainda carrego comigo. Não existe lógica em querer tudo só pra si. Se eu tenho dinheiro pra tirar 15 moleques drogados das ruas, eu diminuo as chances de ser assaltado. Isso é óbvio, mesmo que esse pensamento seja medíocre. Se eu tivesse dinheiro sobrando, certamente criaria uma fundação ou ajudaria algumas já existentes, que cuidassem de crianças, seja da maneira que for. Moldar as crianças, não de uma maneira que se pareçam conosco, mas moldar como cidadãos conscientes e responsáveis, é a chave, o único caminho pra que se consiga viver com tranquilidade no futuro. Ainda mais nessa merda de país que fede a purpurina e bosta.

Uma outra grande injustiça divina é não reparar que sou a pessoa perfeita pra ser um milionário. Ainda mais agora. Tenho bastante conhecimento, gosto de ler e de manter informado, tenho um namoro firme, pretendo casar e ter filhos. Não gastaria rios de dinheiro com inutilidades, até porque não vejo lógica nisso. Enquanto um novo-rico qualquer se gaba de ter 1 milhão na conta bancária, o bilionário acha que poderia ter um pouquinho mais. É uma questão de perspectiva. Não sou doente com dinheiro, até porque não tenho nada e, quando tenho, gasto tudo, mas tenho uma visão que poderia muito bem ser considerada financeiramente arriscada e arrogante, no sentido de querer ter mais, porém prudente, no sentido de saber o que fazer com o que se tem.

Pois bem, enxergo a divisão sócio-econômica da sociedade brasileira atual da seguinte maneira:

Burguesia: os ricos de verdade, que ganham milhões. Não pegam congestionamento, não entram em fila, não esperam o download carregar, só se aborrecem se quiser. Podem ser considerados os donos do mundo, sem qualquer problema.

Classe média alta: os que ganham muito bem e mantém uma vida de conforto. Os filhos estão em uma boa escola particular, tem uma boa casa própria, alguns carros na garagem, mas tem que enfrentar congestionamento. Viajam pro exterior algumas vezes por ano quando há tempo e pagam tudo no débito.

Classe média: são os fodidos. Pagam os mesmos impostos que a classe média alta, mas não sobra quase nada pra desfrutar em viagens ou compras. A casa é aluguel e o único carro popular foi financiado. Pagam tudo no cartão de crédito e se orgulham disso.

Classe média emergente: são fodidos, mas são felizes. Não sobra dinheiro pra nada, mas já estavam acostumados a isso na pobreza. A diferença é que agora dá pra ter um carro usado comprado em 60 vezes e alguns eletrodomésticos e eletroeletrônicos novos dentro do apê alugado.

Pobres: são os pobres.

Seria feliz e conseguiria administrar minhas finanças com toda a tranquilidade do mundo, caso fosse milionário, mas isso tá bem longe de ser uma realidade, devo admitir. Talvez um dia seja, enfim.

O que me estimula, porém, a estudar e buscar meus objetivos é a classe média alta, local onde desejo estar. Ganhando talvez de R$1000 a R$2000 por dia. É algo possível, tenho pessoas na família nessa situação (apesar de não me darem um centavo disso, nem no meu aniversário).

Poder comprar joias, boas roupas, ter uma boa casa, um bom carro, viajar pra bons lugares. Isso vale a pena.

Vou estudar. Adeus.