Como educar os filhos numa família ateia

ateísmo ateia e família feliz

Lembro-me de uma discussão num fórum ateu da qual participei há alguns anos que colocava em pauta a relação entre pais ateus e seus filhos. A pergunta era "Como falar sobre ateísmo com seus filhos?". Algumas respostas me surpreenderam como a de uma garota que chegou a dizer que "desistiria" de pensar sobre o ateísmo simplesmente porque não saberia colocar a questão na esfera familiar. Uma grande bobagem. 

É uma questão muito interessante, apesar de não considerá-la tão complexa como dizem. Acho que podemos dividir esse assunto em 3 partes: o respeito às religiões, a natureza humana e os "bons modos" na sociedade.

No que concerne às religiões, não as respeito. E não é uma questão de desprezo, muito pelo contrário, ataco a intromissão, a hipocrisia e o ódio religioso. Não posso me conformar com o frenesi católico no debate de questões como o uso células-tronco embrionárias e a descriminalização do aborto, sendo que a Igreja, recentemente (numa perspectiva histórica), queimava índios, mulheres e cidadãos inocentes, vivos e desesperados, a seu bel prazer.

Não se pode colocar o religiosos como centro de ataques, mas não se pode jamais incutir na criança a obediência cega à religião, deixando-a, assim, questionar todo o resto. É um crime que pais ateus, com uma oportunidade de ouro de colocar um ser humano polidamente inteligente e de bem com a vida e consigo mesmo no mundo, se satisfaçam em criar apenas mais um gado.

Pais ateus devem entender que a ideia do ateísmo não vai criar nenhum problema na cabeça das crianças, até porque elas nasceram ateias!

O segundo ponto, a natureza humana, é bem interessante. É estúpido classificar uma criança como comunista, liberal, marxista, petista ou com qualquer roupagem ideológica que seja, justamente porque sabemos que crianças não estão interessadas e muito menos possuem discernimento para esse tipo de questão.

Por que diabos, então, pais cristãos rotulam seus filhos de cristãos? Bebês rezam? Claro que não. Todas as crianças nascem ateias. E se você me perguntar: "Ora, mas se você diz que elas não possuem discernimento, como seriam ateias?", eu te responderei com a maior facilidade do mundo que não há ideologia no ateísmo. Por isso que todas as crianças nascem, quer queiramos ou não, cristalinamente ateias.

Não deveríamos ter medo de preparar nossos filhos pra viver com a verdade. Eles já nasceram com ela, basta cultivar.

Terminarei falando sobre como ateus e, principalmente, pais ateus devem orientar seus filhos a se portar socialmente. Ensinar a dissimulação para nossos pequeninos parece um tanto quando precipitado e perigoso. Em certa medida é o que deve ser feito, mas de maneira sutil, claro.

Lembremos que nossos filhos, automaticamente, nos copiam, e há uma forte carga genética nisso. Enquanto em várias outras espécies os filhotes são largados para aprender com a vida, nossas crianças precisam de cuidados e aprendem, desde cedo, a respeitar a autoridade. Passam a saber o que é certo e errado. Pelo menos, o que foi colocado como certo ou errado.

Apesar de crianças não serem adeptas a meio termos, é o que precisamos, com paciência, colocar em suas cabeças. Nossos filhos devem saber que é preciso respeitar a posição alheia, porém, é necessário que se tenha personalidade e saiba se portar com o que acredita ser verdadeiro; que não há motivos para recusar participar de atividades que não envolvam o seu conjunto de crenças, porém, é preciso não se deixar levar pela autoridade de terceiros.

Por último e principalmente: é preciso reconhecer-se como ateu, saber o que isso significa e sentir-se livre para buscar alguma outra ideia que acredite ser verdadeira, porém, que, em qualquer caso, tenha-se a malícia de saber quando dizer, o que dizer e com quem dizer.