Sobre a brevidade da vida
Há pouco tempo, quando a expectativa de vida era de cerca de 30 anos, eram taxados de lunáticos os que diziam que um dia a referida taxa chegaria aos 90 anos. Vivemos hoje nessa era. E, da mesma forma, corroborando a tese de que o ser humano não se cansa de errar, ridicularizamos quem diz que um dia viveremos 300 anos. É claro que viveremos. Bastou uma ou outra droga e algumas informações nutricionais adicionais para fazer com que a expectativa de vida triplicasse em pouquíssimo tempo. É claro que os avanços da engenharia genética nos proporcionarão uma vida muito mais longa daqui a algumas décadas.
Mas o engraçado é como eu vejo isso ainda como tão pouco. Tenho uma visão "universal" da vida. Acho que a consciência deveria durar para sempre, podendo ser desligada quando seu dono bem pretendesse. Nessas horas a ideia de um deus e um "outro lugar" vem a ser interessante. Mas vou me ater ao que muitíssimo provavelmente existe, ou seja, um mundo físico, concreto, sem paraísos: a vida é absurdamente curta. Não dá tempo pra praticamente nada. Já acharia pouco ver meus décimos netos, imagina observar que poucas são as pessoas que tiveram a oportunidade de conviver com seus bisavós. Absurdo. Mal dá tempo de suspirar com algum pingo de dignidade.
É nessas horas de reflexão fria e calculista que percebo o quão inócua é a vida de quem se dedica ao acúmulo. O acúmulo é completamente inútil. A vida se desfaz e com ela todos os nossos esforços, todas nossas tristezas, todas as alegrias, toda a inteligência, todo conhecimento e todo o dinheiro. Nessas horas percebo a lógica de uma vida na qual retirássemos coisas ao invés de catarmos o que aparecer pela frente. Não significa de maneira alguma deixar de acumular no mundo aparente, mas esse acúmulo deve ser o reflexo de um esvaziamento do mundo sensível, no sentido de nos polirmos cada dia mais. No sentido de entendermos a brevidade da vida e irmos nos despindo constantemente dos nossos preconceitos, das nossas raivas e das divisões que criamos física ou mentalmente.
O sucesso na vida financeira de nada adianta se não vier acompanhado da consciência sobre a realidade do mundo em que vivemos e da real importância do dinheiro e das pessoas. O acúmulo de conhecimento de nada adianta se não vier acompanhado com um sentimento de amadurecimento frente ao que significa sabedoria. O acúmulo de experiências de nada adianta se não vier acompanhado da compreensão sobre a vida, a morte e a felicidade.
Honestamente, não me importo com a morte. Não há sequer muita lógica em comentar sobre isso. A morte é nada. Ninguém debate sobre o nada. A morte sequer existe no mundo material. O que existe é a morte da consciência, irrelevante para a natureza. A vida material, os trilhões de átomos borbulhantes no corpo de cada ser humano, vão continuar do mesmo jeito. A morte é um rearranjo desses átomos - devido a vida nada proveitosa de alguns, um rearranjo, convenhamos, muito oportuno - que nos mostra que a vida sempre foi eterna, a despeito das nossas tentativas de criar áureas místicas sobre tudo e sobre todos.
O que eu me importo e me incomoda de certa maneira é o que fazer com a vida, a vida humana, consciente, a vida do relacionamento, da alegria, da dor sentimental, do conhecimento, da compreensão. Quero o melhor para mim, para as pessoas que amo e para muitos que eu sequer conheço ou conhecerei um dia. Minha visão sobre o trabalho é essa: transformação. Quero mudar a vida das pessoas. Quero me sentir verdadeiramente útil. Pouco me importa o dinheiro ou o sucesso. Quero meus momentos de alegria e de paz. Mas alegria e paz só existem com frequência na vida dos que amam: sua mulher, seu marido, seus filhos, seus amigos, seu trabalho. A morte não interessa. A base da vida é, provavelmente, o amor. Vamos nos ater ao amor. O resto é secundário.
